quinta-feira, fevereiro 19

Marco conceitual do IPBES é publicado

Nas raízes mais profundas da crise ambiental que ameaça a biodiversidade da Terra estão as ações antrópicas. Natural, portanto, que as instituições humanas e os sistemas de governança ocupem um lugar central na busca por soluções.

Partindo dessa premissa, os membros da Plataforma Intergovernamental de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES) – entidade internacional criada em 2012 com a função de sistematizar o conhecimento científico acumulado sobre biodiversidade para subsidiar decisões políticas em âmbito internacional – elaboraram o marco conceitual que deverá orientar todos os trabalhos do grupo nos próximos anos.
O documento, aprovado em reunião realizada na cidade de Antália (Turquia) no fim de 2013, foi divulgado este mês para a comunidade científica em artigos nas revistas PLoS Biology e Current Opinion in Environmental Sustainability.
“O IPBES divulgará em breve uma série de relatórios sobre o status da biodiversidade no planeta. É um trabalho altamente interdisciplinar, envolvendo biólogos, sociólogos, economistas, povos indígenas e outras comunidades tradicionais, além de decisores políticos. O marco conceitual busca estabelecer uma linguagem comum para que todos possam se entender e os trabalhos possam ser comparados”, explicou Sandra Díaz, professora da Universidade Nacional de Córdoba, na Argentina, e membro do Painel Multidisciplinar de Especialistas (MEP, na sigla em inglês) do IPBES.
Ao lado do etíope Sebsebe Demissew, da Addis Ababa University, Díaz coordenou ao longo de mais de dois anos o processo de elaboração do marco conceitual. Carlos Alfredo Joly, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), co-chair do MEP e coordenador do Programa FAPESP de Pesquisas em Caracterização, Conservação, Restauração e Uso Sustentável da Biodiversidade (BIOTA), é coautor dos dois artigos.
O trabalho contou com a colaboração de centenas de especialistas e levou em consideração não apenas a linguagem científica consolidada (termos como "biodiversidade", "ecossistemas" e "evolução"), como também a linguagem dos povos tradicionais e andinos ("mãe terra", "sistemas de vida" e "vivendo em harmonia com a mãe terra") e a linguagem transcultural consolidada na interface entre ciência e política dos acordos internacionais (com termos como "qualidade de vida" e "benefícios da natureza para as pessoas").
O modelo resultante, explicou Díaz, busca traduzir as interações entre a humanidade e o mundo natural por meio de seis elementos: “natureza” (todo o mundo natural com ênfase na biodiversidade e ecossistemas), “benefícios da natureza às pessoas” (inclui valores espirituais, religiosos, culturais, comerciais), “ativos antropogênicos” (conhecimento, tecnologia, recursos financeiros, infraestrutura), “fatores indiretos de mudança” (como sistemas de governança e legislação), “fatores diretos de mudança” (alteração de habitat, mudança climática) e “boa qualidade de vida” (acesso a água, comida, saúde, educação, segurança, identidade cultural, prosperidade material, satisfação espiritual e liberdade de escolha).
“É um modelo muito simples do mundo, compreensível para pessoas de todas as áreas. Poderíamos ter feito algo muito mais sofisticado, não só pelas palavras como também pelas conexões e conceitos adotados. Mas ficaria ininteligível para os indígenas, por exemplo”, disse Díaz
No centro do modelo estão os ativos antropogênicos, as instituições humanas, os sistemas de governança e outros fatores indiretos de mudança – considerados pelos cientistas do IPBES peças-chave na proteção e manejo adequado da biodiversidade e dos ecossistemas
“A raiz dos problemas e também das soluções é fundamentalmente social. Nunca vamos solucionar nada se mirarmos nas causas diretas das alterações nos ecossistemas, como o desmatamento. Temos de mirar nos fatores que estão impulsionando esse desmatamento. Atacar os fatores diretos é como dar uma aspirina a um doente em estado grave”, avaliou Díaz.
No artigo publicado na PLoS Biology, os cientistas do IPBES comparam o marco conceitual da entidade à Pedra de Roseta (fragmento de rocha cujas inscrições bilíngues foram cruciais para a compreensão moderna dos hieróglifos egípcios) “por destacar pontos comuns de diversos conjuntos de valores e por facilitar a compreensão transdisciplinar e transcultural” dos benefícios que a natureza oferece às pessoas, contribuindo para a crescente tendência de interdisciplinaridade na compreensão e gestão do meio ambiente.
“Esse artigo, de apenas oito páginas, tem o objetivo de alertar a comunidade científica de que o documento está pronto e apresentar suas principais características”, contou Díaz.
Já o artigo publicado na Current Opinion in Environmental Sustainability é mais longo, faz a descrição detalhada de todos os elementos, sua fundamentação teórica e filosófica.
“Também apresenta exemplos que podem auxiliar pessoas de dentro ou de fora do IPBES a aplicar esses conceitos em uma avaliação profissional ou em um trabalho acadêmico”, contou Díaz.
Diagnósticos regionais da biodiversidade
Entre os dias 12 e 17 de janeiro, o coordenador do programa BIOTA-FAPESP participou da terceira reunião plenária do IPBES, realizada na cidade de Bonn, na Alemanha. Representando o governo brasileiro estavam os diplomatas Clarissa Souza Della Nina, chefe da delegação e chefe da Divisão do Meio Ambiente (DEMA) do Ministério das Relações Exteriores, e o 3º secretário Davi de Oliveira Paiva Bonavides, também do DEMA. A delegação também contou com Carlos Alberto de Mattos Scaramuzza, diretor do Departamento de Conservação da Biodiversidade (DCBIO) do Ministério do Meio Ambiente.
Na ocasião, foi aprovado o Termo de Referência para o início de quatro diagnósticos regionais sobre o estado atual da biodiversidade e serviços ecossistêmicos. Os relatórios deverão ficar prontos no final de 2017 e serão a base para o primeiro diagnóstico global, previsto para 2019.
“Do ponto de vista da biodiversidade, a divisão do mundo em cinco regiões geopolíticas adotada pela Organização das Nações Unidas (ONU) não tem nenhum sentido. Então, para a realização dos diagnósticos regionais, dividimos o mundo em quatro regiões biogeográficas: Américas, Oceania, Pacífico e Europa Central”, contou Joly.
A região das Américas, por sua vez, foi dividida em outras quatro sub-regiões: América do Norte, Mesoamérica, Caribe e América do Sul, na qual o Brasil está inserido.
O Termo de Referência, explicou Joly, estabelece todos os elementos que deverão ser abordados nos relatórios, inclusive indicadores e métricas.
Também foram aprovados o Termo de Referência para o Diagnóstico Global sobre Degradação e Restauração da Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos, previsto para 2017; a Política de Informática para Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos do IPBES; a Estratégia de Comunicação e Engajamento com Stakeholders; e o orçamento da plataforma para os anos de 2015 e 2016, com recursos alocados para cada uma das atividades do Programa de Trabalho.
Por último, foi aprovada a Estratégia de Capacitação Profissional em Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos, que contará com um programa-piloto de bolsas e de intercâmbios de especialistas entre países, bem como um mecanismo de aproximação entre possíveis doadores de recursos, infraestrutura ou capacidade técnica.
“Os doadores podem ser agências da ONU, como Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) e FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação); entidades multilaterais, como o Global Environmental Facility (GEF); organizações não governamentais, como International Union for Conservation of Nature (IUCN) e World Wide Fund for Nature (WWF); fundações, como The Bill & Melinda Gates Foundation, Mellon, McArthur; empresas; bancos e outros”, explicou Joly.
A estratégia de capacitação aprovada é fruto das discussões realizadas em São Paulo, em setembro de 2014 (leia mais em:http://agencia.fapesp.br/painel_intergovernamental_discute_capacitacao_para_pesquisas_em_biodiversidade/19840/).
“O grande desafio agora é conseguir deslanchar os diagnósticos regionais e, ao mesmo tempo, estabelecer até o fim de 2015 o Termo de Referência para o diagnóstico global, para que possa ser aprovado na próxima reunião plenária, no início de 2016”, contou Joly.
“No Brasil, não temos estrutura para fazer o diagnóstico em nível nacional. Vamos ter de montá-la ao mesmo tempo em que estiver sendo organizada a estrutura para América do Sul e já conectá-la com América Central, Caribe e América do Norte. É um encadeamento de coisas que deverá ser nosso foco central de atividades ao longo de 2015”, comentou Joly. 


FONTE: FAPESP