Salas com pufes, mesões coletivos, fim das baias e das estações fixas. Há quem acredite que, se não for todo mundo para casa, essa será a cara das empresas nos próximos anos
Sede da Vitra, fabricante de mobiliário, em Basileia (Suíça): alguns nichos coloridos funcionam como espaço para videoconferência, outros como sala de reuniões rápidas
Desde a migração da mão de obra do campo para os centros urbanos, a relação do homem com os escritórios vive um constante processo de metamorfose.
Da segregação espacial do layout taylorista, no fim do século 19, à
diversidade estabelecida pelo conceito de coworking, no começo do ano
2000, os empregados já enfrentaram a derrubada de paredes para deixar as
plantas mais livres, as delimitações dos cubículos e a flexibilidade do
home office. E a expansão ou o encolhimento dos espaços não devem parar por aí.
As transformações no ambiente de trabalho
não só vão continuar como se tornar mais velozes para acompanhar o
ritmo das novas tecnologias. Aparelhos como notebooks, tablets e
smartphones e ferramentas como teleconferências e conexão Wi-Fi
influenciaram o design de mobiliários e o desenvolvimento de materiais.
Talvez seja dessa constante e veloz mudança que surgirão as dúvidas e
as teorias fantasiosas em relação às estruturas físicas da empresa.
Afinal, quem nunca ouviu boatos apocalípticos de que, um dia, os prédios
comerciais desaparecerão? Ou de que, em alguns anos, os profissionais
só se relacionarão virtualmente?
A seguir, confira as principais histórias que rondam o futuro dos
escritórios e os dados de especialistas em arquitetura, as pesquisas e
os estudos que explicam por que a maior parte delas não passa de mito.
1 Os escritórios serão extintos
Nada disso. A tendência é que alguns, dependendo do tipo de negócio, se
tornem menores, tanto pelo custo do metro quadrado quanto pelo caos
urbano, o qual muitas vezes impossibilita o deslocamento dos
funcionários.
Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) divulgados
em 2013 revelam que um em cada quatro moradores do Rio de Janeiro perde
mais de 1 hora no trânsito para chegar à empresa. Soma-se a isso o valor
salgado do metro quadrado dos imóveis comerciais.
De acordo com uma pesquisa da Colliers International Brasil, de 2006 a
2011, o preço do aluguel em São Paulo praticamente duplicou, passando de
52, 50 reais o metro quadrado por mês para 118,50 reais. “A tendência é
que esse custo nos grandes centros do Brasil e do mundo continue
crescendo, tornando a manutenção dos escritórios extremamente
significativa no orçamento anual”, diz Valter Caldana, diretor da
Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana
Mackenzie.
O especialista aponta ainda um terceiro fator que torna a redução dos
espaços um caminho sem volta: o processo de automatização. “Nos últimos
30 anos, notamos cortes nas equipes em consequência da introdução maior
da tecnologia. Hoje, por exemplo, muitos já não têm uma área de
documentos nem um arquivista; tudo foi digitalizado”, afirma.
2 As salas de reunião vão sumir
Por mais que as pessoas prefiram resolver problemas, eliminar
pendências e estabelecer acordos por e-mail, telefonemas e até na
própria mesa, as salas de reunião não vão deixar de existir. Nas plantas
do futuro, elas aparecerão de outro jeito, outros tamanhos e até cores,
mas ocuparão os cantinhos dos projetos.
De acordo com os arquitetos, esses espaços podem ser adaptados em
vários formatos, como saletas embutidas em paredes, divisórias móveis
que delimitam um local para conversar e salas tradicionalmente fechadas,
mas com paredes transparentes. “Já fiz projetos em que uma parte da
mesa se soltava para unir-se a outras, se transformando em uma
superfície maior para reuniões”, diz Ana Cristina Tavares, sócia da KTA –
Krakowiak & Tavares Arquitetura.
Para fazer uso desses novos modelos, a arquiteta aconselha o
investimento não só em anteparos e materiais que tenham uma boa absorção
acústica, mas também em uma reeducação dos funcionários. “As pessoas
precisam ser disciplinadas para ocupar ambientes assim. Se todos falarem
alto, por exemplo, poderão atrapalhar quem estiver ao redor.”
3 Todos farão home office
O sistema tão comentado nos últimos tempos está longe de ser
unanimidade entre os especialistas, que defendem a necessidade do
convívio humano para estimular a colaboração e a criatividade.
“Não indico o afastamento total do escritório. O RH deve manter contato
com o funcionário em home office, incentivar a relação com o supervisor
e os colegas, e solicitar periodicamente sua presença em treinamentos e
outras atividades”, diz Wolnei Ferreira, coordenador do fórum de
teletrabalho da Associação Brasileira de Recursos Humanos
(ABRH-Nacional).
O mais indicado atualmente é um sistema híbrido, ou seja, a combinação
do remoto com o presencial. Dessa fórmula, surgem dois conceitos de
trabalho: o coworking e os chamados third spaces. O primeiro, de acordo
com uma pesquisa da Deskmag, revista online especializada em coworking,
cresceu mais de 83% de 2012 a 2013.
Hoje, mais de 110 000 pessoas compartilham aproximadamente 2 500 salas
distribuídas pelo mundo. Uma das empresas de coworking é a B4i, fundada
pelos sócios Antônio de Morais Pinto e Dirceu Neto. No endereço
instalado no Jardim Europa, em São Paulo, já se concentram alguns
trabalhadores, muitos deles vindos de organizações que têm endereço
físico.
“A maioria das empresas nos procura porque precisa enxugar os custos.
Elas diminuem de tamanho e ‘alugam’ um espaço para o funcionário”, diz
Neto. Para comportar os profissionais de diferentes setores, alguns
coworkings oferecem áreas privativas, ocupadas por apenas uma companhia.
Normalmente, porém, o usuário compartilha um salão, podendo escolher
entre um pacote com lugar fixo ou móvel — neste último, a pessoa deve
levar o próprio notebook. O outro conceito, conhecido nos Estados Unidos
como third place (“terceiro lugar”, numa tradução livre), permite que o
funcionário desempenhe sua função de qualquer lugar — um café, um
aeroporto.
A Regus, empresa belga voltada para o fornecimento de soluções de
espaços flexíveis de trabalho, atualmente investe na instalação de
pontos com Wi-Fi, salas de reunião, impressora e até cafés e chás em
locais como postos de gasolina e estações de trem. Por enquanto, o
projeto vingou apenas no Reino Unido e na Alemanha.
4 A empresa será sua segunda casa
Ainda que exista um movimento para deixar os espaços corporativos cada
vez mais parecidos com nosso lar, alguns arquitetos, como Patricia
Anastassiadis, acreditam que é necessário tomar cuidado com esse estilo.
“Se por um lado o funcionário se sente mais confortável por
praticamente ‘estar em casa’, por outro ele pode perder a noção das
horas e passar mais tempo do que o necessário trabalhando”, diz a
diretora do Anastassiadis Arquitetos. “A estrutura do local deve ajudar
os indivíduos a ter melhor desempenho, e ficar muito tempo na
organização não é sinônimo de maior produtividade.”
Isso não significa que a companhia tenha de eliminar os sofás e os
locais de descontração, e sim que é indicado estabelecer uma divisão
clara entre a empresa e a casa.
5 Os pufes terão lugar obrigatório
Não são raras as vezes que um arquiteto é contratado para desenvolver
um projeto corporativo e depara com tal pedido: uma sala com sofás de
cores variadas e videogame. A decoração do Google ainda dita moda, e
muitas empresas, quando querem mudar seus layouts, pensam em replicar o
modelo da empresa de tecnologia. O problema é que esse estilo não serve
para todos.
“A cultura da tecnologia e a entrada de profissionais jovens no mercado
com certeza influenciam as empresas, que acham que devem adotar esse
estilo”, afirma Patricia Anastassiadis. Para ela, os chamados “espaços
de descompressão” podem aparecer em qualquer tipo de negócio, desde que
estudado o modelo ideal.
“Em um escritório de advogados, um café ou um local para leitura
funcionam melhor do que um televisor com PS3”, afirma. Salas de cinema,
paredes com redes e varandas também se mostram alternativas muito
interessantes.
Poltronas vermelhas no Google de São Paulo: o ambiente descolado enche
os olhos de muitos RHs, mas, na verdade, não serve para todo tipo de
negócio
6 As pessoas trabalharão em pé
Alguns escritórios de arquitetura, como o americano Herman Miller,
oferecem essa solução para seus clientes, mas a “moda” não chegou ao
Brasil. “Nos Estados Unidos, já temos ambientes customizados com peças
que permitem aos profissionais atuar de diferentes jeitos e em
diferentes lugares”, diz Eric Gonzalez, estrategista sênior em ambiente
de trabalho da Herman Miller.
São essas possibilidades num mesmo endereço que deverão predominar no
futuro. Ou seja, as cadeiras não serão extintas de uma vez. Afinal,
apesar de as mesas altas sem assento ser uma alternativa para o
sedentarismo, permanecer o dia todo em pé também não faz bem à saúde.
Se fossem seguir a recomendação médica, as empresas deveriam mesmo
apostar num mobiliário flexível para forçar o movimento do “levanta,
senta, anda” no escritório e, assim, evitar fadigas e dores musculares.
“O que falta no Brasil é o entendimento de que a forma de trabalho muda
ao longo do dia, e a estrutura física deve acompanhar esse ritmo”, diz
Betty Birger, arquiteta do escritório homônimo.
“Quanto mais diversificado for o espaço, mais criatividade e
produtividade serão geradas.” Betty ainda aponta outra vantagem da
flexibilidade: o menor custo de implantação e manutenção. “Você desmonta
esse mobiliário muito rapidamente, o que facilita quando a empresa
diminui ou aumenta o número de empregados.”
7 As baias vão acabar
A ideia de colocar todos em mesões e derrubar qualquer tipo de
divisória está no imaginário de muita gente quando se fala de trabalho
no futuro. Mas isso dificilmente deverá acontecer. Primeiro porque já
foi constatado que a convivência forçada gera desconfortos capazes de
ferir a produtividade.
De acordo com Andrea de Paiva, especialista em neuroarquitetura, ao
retirar as divisórias, o profissional pode acabar se sentindo vigiado o
tempo inteiro, o que ativaria a parte do cérebro chamada de reptiliana,
responsável pelo instinto. “A sensação de estar sendo observado
interfere na criatividade e no relacionamento interpessoal. As pessoas
deixam de agir naturalmente”, diz a arquiteta.
Dessa forma, em vez de gerar um ambiente amigável, de colaboração e de
troca, principais atributos do open space, o fim das baias pode promover
um cenário de insegurança coletiva. O segundo motivo que justifica a
permanência de divisórias nos escritórios é a necessidade de
privacidade, fundamental para alguns cargos.
“Algumas funções sempre serão realizadas entre quatro paredes”, diz
Guto Requena, do estúdio homônimo. O arquiteto, no entanto, sugere outro
jeito de subir as baias. “É possível investir em divisórias
transparentes, sem isolar visualmente, mas mantendo a privacidade
acústica”, diz.
Um de seus projetos que vão nessa linha é o da Masisa, multinacional de
laminados de madeira. Lá, as salas de reunião têm paredes removíveis e a
diretoria manteve seu espaço privado cercado por vidro. “O ambiente
mais aberto reflete uma cultura transparente. Quem tem sala costuma
ficar de portas abertas e persianas levantadas”, afirma Patricia Pires,
diretora de capital humano da companhia.
8 Ninguém mais terá estação fixa
Algumas empresas já determinaram o fim das estações fixas e vem, aos poucos, estimulando seus funcionários a exercer o desapego. Segundo a neuroarquiteta Andrea de Paiva, essa ideia pode
ser perigosa, pois o ser humano não gosta de dividir o espaço de
trabalho.
“A territorialidade faz parte de nossa natureza, ficamos mais à vontade
quando estamos em nosso ‘terreno’ ”, diz a especialista. “A sala de
aula é um exemplo. As crianças naturalmente escolhem suas carteiras e,
se algum dia um aluno ocupa seu assento, há um desconforto.”
O sentimento de ter o próprio computador, gavetas e um local para
decorar ajuda o funcionário a se sentir parte daquele ambiente e
contribui, indiretamente, para sua satisfação com o trabalho.
De acordo com um levantamento da Regus, os funcionários sentem necessidade de ter objetos pessoais na mesa. Entre os itens mais citados pelos 20 000 respondentes de mais de 80 países, a foto da família ocupa o primeiro lugar — citada por 18% dos entrevistados em todo o mundo e 28% no Brasil.
FONTE: Exame

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