Especialistas explicam como é possível obter melhores resultados na difícil (e sempre em transformação) tarefa de selecionar profissionais
A tarefa de recrutar pessoas passou por uma verdadeira revolução nas últimas décadas. Surgiram as redes sociais, ganharam peso as competências comportamentais, a contratação por valores se intensificou e, em vez de candidatos ansiosos tentando vender suas qualidades aos sisudos recrutadores, estão empresas preocupadas em lapidar sua imagem como boas empregadoras.
Em meio a tanta transformação, permaneceu o fato de o recrutamento ser um dos maiores desafios — se não o maior — da área de recursos humanos. “Entre as disciplinas da nossa área, acho que essa é a mais difícil”, afirma Marcello Zappia, diretor de RH da Tecnisa.
“Para remuneração existem técnicas e ferramentas, para programas de
desenvolvimento há metodologias, mas recrutamento é arte, não tem
fórmula mágica.” A seguir, outros executivos de recursos humanos e
especialistas em recrutamento contam como a empresa pode ser mais
assertiva na difícil missão de selecionar os melhores.
1 Caia com tudo na rede
É inegável que o uso das redes sociais revolucionou a eficiência dos
processos de recrutamento, trazendo mais agilidade para a busca por
profissionais e, é claro, reduzindo custos. Segundo Milton Beck, diretor
de vendas do LinkedIn,
em 2011, 16% das companhias utilizavam redes sociais profissionais para
contratação de pessoas no Brasil. Em 2013, essa fatia deve chegar a
nada menos do que 44%.
Curiosamente, apenas 20% dos usuários do LinkedIn estão buscando
recolocação. Isso quer dizer que 80% deles são candidatos passivos, que
não entram no site de carreira da empresa e não enviam currículos.
“Embora eles não estejam procurando emprego, podem aceitar conversar se
forem abordados com uma oportunidade,” afirma Beck.
As redes sociais
— e, neste caso, até as não profissionais — também valem para dar uma
checada nas relações dos candidatos fora do processo seletivo. A
Tecnisa, por exemplo, é totalmente adepta da técnica da “espiadinha”.
“Usamos o LinkedIn e o Facebook para buscar referências de candidatos e
também para avaliar seu comportamento nas redes”, explica Zappia.
“Se a pessoa for agressiva, por exemplo, e não demonstrar os valores
que praticamos aqui, já sabemos que dificilmente irá se adaptar à
empresa.”
Outra possibilidade que pode aumentar a eficiência do recrutamento é a divulgação das vagas nas mídias sociais das empresas, que acabam recebendo compartilhamentos espontâneos de seus fãs. “Muita gente segue vagas pelo Twitter e pelo Facebook e pode dividir as oportunidades que considera interessantes com seus amigos e seguidores, que possivelmente tenham interesses semelhantes aos seus,” afirma Mário Custódio, especialista em recrutamento da Robert Half.
2 “Venda” sua vaga
Buscar, divulgar e espiar são apenas as contribuições mais óbvias das
redes sociais para o recrutamento. O RH pode usar esse mesmo canal para
outro fim poderoso: cuidar de sua marca como empregadora. “Antes, as
empresas publicavam uma vaga e apenas rezavam para aparecer candidatos.
Era a estratégia do post and pray”, lembra Beck. “Hoje, o RH deve agir mais como áreas de vendas e marketing, gerando demanda de mercado.”
Denise Barreto, sócia-fundadora da GNext Talent Group, consultoria
especializada em soluções em recursos humanos, diz que uma das formas
mais baratas de a empresa vender seu peixe é justamente pelas redes
sociais. “Os jovens estão todos nas mídias sociais, e a empresa pode
atingir esse público de forma segmentada, com campanhas, vídeos
institucionais, programações específicas”, diz ela.
Claro que para obter bons resultados não basta apenas entrar na onda.
“Não adianta, por exemplo, ter uma página no LinkedIn só porque é legal,
sem oferecer nenhuma informação”, diz Maíra Habimorad, vice-presidente
do Grupo DMRH. “Uma página mal construída pode passar a sensação de que a
empresa é vazia.” Neste caso, em vez de atrair, você vai espantar
candidatos.
3 Deixe explícito quem você é
Oferecer informação consistente sobre a empresa facilita outra questão
extremamente relevante na busca pela eficiência no recrutamento: o
alinhamento dos candidatos aos valores da empresa. “Ninguém mais
contrata só pelo lado técnico”, afirma Rafael Meneses, sócio da Asap,
consultoria de recrutamento.
“Isso funcionava bem nos anos 50.” Segundo Meneses, é importante que a
empresa deixe claro para os candidatos quais são suas características de
gestão, seu estilo de trabalho e até oferecer informações sobre como
seus funcionários se vestem para o trabalho. “Eles precisam vivenciar,
mesmo que brevemente, a atmosfera da empresa para saber se ela tem a ver
com eles ou não.”
4 Mapeie potenciais candidatos
Se, de um lado, a empresa precisa cada vez mais se
expor, por outro o candidato — ou aquele que ainda nem sonha ser
candidato — pode deixar pistas valiosas para a empresa de quem ele é ou
como ele pensa. Neste ano, a Votorantim Cimentos decidiu investir num
processo de mapeamento de potenciais candidatos para selecionar 14
trainees.
O mapeamento nada mais é do que o cruzamento de dados
reais da empresa baseados na opinião de seus funcionários, com valores e
expectativas de potenciais candidatos. Com esses parâmetros, a empresa
obtém um conjunto de pessoas que poderia abordar.
“Não estou abrindo vagas, estou dando elementos para
ver se existe uma combinação entre o que a pessoa busca e o que a
empresa pode oferecer”, explica Paula Giannetti, gerente-geral de
captação, desenvolvimento e educação da Votorantim Cimentos.
“É uma forma proativa de a empresa entrar em contato
com pessoas que talvez nunca tenham cogitado trabalhar conosco, mas que
gostaríamos de ter aqui.” O trabalho será coordenado pela 99jobs,
comunidade de emprego e carreira, em parceria com a Box 1824, agência de
pesquisa especializada em tendências de consumo e comportamento jovem.
A ferramenta já provou ser eficiente num piloto que a
Votorantim Cimentos realizou para seleção de estágio. “Nossa estagiária,
que hoje é funcionária contratada, contou tudo o que fazia, com quem
interagia e, com base nessas informações, a 99jobs foi cruzando
informações até chegar a 217 potenciais candidatos à vaga via redes
sociais”, explica Paula. Para esses possíveis candidatos, a empresa
enviou uma comunicação direcionada, perguntando quem tinha interesse em
participar da seleção. Deles, 71 toparam.
O processo evoluiu até que 22 pessoas passaram por uma
entrevista por telefone. Delas, nove foram convidadas para conhecer a
empresa. “A 99jobs ia informando o percentual de aderência de cada
candidato ao perfil que estávamos buscando”, diz Paula. “Das nove
pessoas, cinco tinham 99% de aderência e, delas, eu contrataria quatro.”
Detalhe: todo esse processo demorou dez dias.
Eduardo Migliano, sócio da 99jobs, explica que a busca
por potenciais candidatos é feita em comunidades online. “Mapeamos
comunidades que tenham a ver com os valores que a empresa procura”, diz.
A estratégia, ele acredita, é muito mais focada e eficiente do que
participar de feiras de recrutamento, por exemplo. “A grande mudança é
transferir o recrutamento para o relacionamento.”
5 Dê valor às indicações
Outra forma eficiente e ágil de buscar pessoas já
alinhadas aos valores da empresa é investir em indicações internas. Foi o
que constatou a Tecnisa, que há um ano e meio inaugurou o programa
Criar, que recompensa indicações em dinheiro. São oferecidos 250 reais
por indicação para cargos administrativos e 150 reais para cargos
operacionais.
“Já contratamos 90 pessoas dessa forma e os resultados
são excelentes”, diz Zappia, diretor de RH. “Uma coisa é a empresa ter
três ou quatro pessoas na área de recrutamento buscando profissionais no
mercado”, afirma. “Outra coisa é er 3 000 pessoas que podem
indicar seus amigos, que muito provavelmente já vão ter proximidade com
os valores da empresa.” As contratações por meio do Criar levam em torno
de sete a oito dias úteis. Por outros meios, a média é de 15 dias
úteis.
6 Contrate pessoas para contratar
Mais uma estratégia da Tecnisa para aumentar a eficiência e reduzir o
tempo das contratações foi investir em uma equipe interna de seleção
capaz de conduzir de 80% a 90% dos processos. “Há dois anos, 100% dos
recrutamentos eram realizados por meio de consultorias”, diz. “Hoje, são
terceirizados apenas processos para preenchimento de vagas muito
específicas. Para funções-padrão, que conhecemos muito bem, trabalhamos
com o RH interno.”
7 Não deixe de olhar nos olhos
Por fim, não custa dizer que, mesmo com todas as tecnologias que
facilitam e aprimoram o recrutamento de pessoas, é consenso entre os
especialistas que o olho no olho continua sendo indispensável e
insubstituível para bater o martelo no final do processo.
Cada necessidade, uma sentença
Não adianta navegar bem na rede, ter um banco de talentos incrível,
usar indicações internas se você não sabe por que está contratando
aquela pessoa.
Maíra, do Grupo DMRH,ressalta que, antes de implementar qualquer
mudança nos processos de recrutamento, é importante pensar nos objetivos
que a empresa quer alcançar. “Se ela quer fechar vagas e reduzir o
turnover porque muitas pessoas não se adaptam à cultura, a indicação
interna pode ser ótima”, diz. “Se a empresa tem um quadro de
funcionários com perfil muito parecido, que dificulta a inovação para o
negócio, a consultoria externa faz muito mais sentido.” Já o
recrutamento interno pode ser a melhor saída quando as pessoas costumam
deixar a empresa porque não se sentem reconhecidas. “É preciso pensar
antes de tomar decisão e não decidir apenas pela moda.”
FONTE: Exame
Nenhum comentário:
Postar um comentário